Por mais que tentes, não vou
esquecer aquilo que me fizeste, perdoei-te mas não esqueci. E sei que isso não
é perdoar…é atenuar aquilo que sinto, para conseguir conviver no mesmo espaço
que tu. Não é perdoar porque essa ferida não foi sarada, porque aquilo que me
fizeste ainda hoje me lembro... Não digo que nunca irá sarar, porque a vida é
um livro por acabar e o capitulo de hoje poderá sofrer abanões amanhã.
Não é muito comum alguém adulto
ter lembranças de coisas que aconteceram quando apenas tinha 3 anos. É preciso
que essa “coisa”, esse momento lhe tenha marcado realmente, e adivinha…eu
lembro-me daquele dia, daquele momento e de tudo o que se passou. Não tive
culpa de nada e mesmo assim não foste capaz de mostrar alguma atenção por mim,
alguma curiosidade, algum interesse…As crianças quando nascem não têm culpa do
meio nem do ambiente em que nascem…Eu não tinha culpa, não tinha!! Mas tu não
quiseste saber de mim…e agora eu tenho de saber de ti?! Tenho de me preocupar?!
E eu? Quem se preocupa com aquilo que sinto?
Quis o destino…que tivesses de
passar por uma situação que nenhuma pessoa merece passar. Quis Deus…que tivesses
de passar e ultrapassar uma doença que mata, que destrói e corrói. Quis a
vida…que tivesses de dar o braço a torcer e voltar-te para aqueles que um dia
ignoraste e não quiseste saber. E essas pessoas não falharam, porque são
família e a família está sempre lá!
No dia em que fiz 20 anos, pela
primeira vez enviaste-me uma mensagem de parabéns…estava numa aula e quando
olhei para o telemóvel, chorei…Não de emoção, e nem sei bem de quê…Talvez de
perplexidade, de surpresa. Uma amiga perguntou-me: E agora?! E disse-lhe: Agora
não sei…e ainda hoje não sei como lidar contigo. Já te disse que para mim não
és tia, não és! Porque sei o que é ter uma tia e tu não és nada daquilo que uma
tia deve ser…Não te chamo tia, porque não consigo, só me refiro a ti como tal
porque não tenho nenhuma forma de dizer às outras pessoas quem és, o que me és…mas
não te consigo sentir como tal! Perdeste tanto de mim! Não sabes nada de mim…e
por isso, não te consigo ver como tal! Onde estavas quando a minha mãe quase me
perdeu na gravidez? Onde é que estavas quando tive o primeiro ataque de asma e
sufoquei? Onde estavas quando entrei na escola primária? Onde estavas quando
tive o primeiro sarau de dança e estava super nervosa e feliz ao mesmo tempo?
Onde estavas nas peças e apresentações que fazia? Onde estavas quando subia ao
palco para receber os diplomas de mérito? Onde estavas quando soube que tinha
entrado na minha primeira opção na faculdade? Pois….não estavas e nunca
estiveste! Hoje estás…Hoje estás a “viver” a minha fase de finalistas, serás
presença na minha pasta com as palavras que me irás escrever…mas fi-lo, acho
eu, por ser moralmente correto e para não magoar mais a avó, porque ela sofreu!
Ela chorou naquele dia, há 20 anos atrás…Estou a dar-te uma oportunidade,
apesar de tudo, porque acredito que as pessoas possam mudar e têm o direito às
“segundas oportunidades”…Não te perdoei ainda, espero um dia conseguir fazê-lo,
não me forces e dá-me tempo…Acho que preciso e tenho o direito a ele.
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