sábado, 14 de maio de 2016

Aquilo que nunca tive coragem de te dizer

Por mais que tentes, não vou esquecer aquilo que me fizeste, perdoei-te mas não esqueci. E sei que isso não é perdoar…é atenuar aquilo que sinto, para conseguir conviver no mesmo espaço que tu. Não é perdoar porque essa ferida não foi sarada, porque aquilo que me fizeste ainda hoje me lembro... Não digo que nunca irá sarar, porque a vida é um livro por acabar e o capitulo de hoje poderá sofrer abanões amanhã.
Não é muito comum alguém adulto ter lembranças de coisas que aconteceram quando apenas tinha 3 anos. É preciso que essa “coisa”, esse momento lhe tenha marcado realmente, e adivinha…eu lembro-me daquele dia, daquele momento e de tudo o que se passou. Não tive culpa de nada e mesmo assim não foste capaz de mostrar alguma atenção por mim, alguma curiosidade, algum interesse…As crianças quando nascem não têm culpa do meio nem do ambiente em que nascem…Eu não tinha culpa, não tinha!! Mas tu não quiseste saber de mim…e agora eu tenho de saber de ti?! Tenho de me preocupar?! E eu? Quem se preocupa com aquilo que sinto?
Quis o destino…que tivesses de passar por uma situação que nenhuma pessoa merece passar. Quis Deus…que tivesses de passar e ultrapassar uma doença que mata, que destrói e corrói. Quis a vida…que tivesses de dar o braço a torcer e voltar-te para aqueles que um dia ignoraste e não quiseste saber. E essas pessoas não falharam, porque são família e a família está sempre lá!

No dia em que fiz 20 anos, pela primeira vez enviaste-me uma mensagem de parabéns…estava numa aula e quando olhei para o telemóvel, chorei…Não de emoção, e nem sei bem de quê…Talvez de perplexidade, de surpresa. Uma amiga perguntou-me: E agora?! E disse-lhe: Agora não sei…e ainda hoje não sei como lidar contigo. Já te disse que para mim não és tia, não és! Porque sei o que é ter uma tia e tu não és nada daquilo que uma tia deve ser…Não te chamo tia, porque não consigo, só me refiro a ti como tal porque não tenho nenhuma forma de dizer às outras pessoas quem és, o que me és…mas não te consigo sentir como tal! Perdeste tanto de mim! Não sabes nada de mim…e por isso, não te consigo ver como tal! Onde estavas quando a minha mãe quase me perdeu na gravidez? Onde é que estavas quando tive o primeiro ataque de asma e sufoquei? Onde estavas quando entrei na escola primária? Onde estavas quando tive o primeiro sarau de dança e estava super nervosa e feliz ao mesmo tempo? Onde estavas nas peças e apresentações que fazia? Onde estavas quando subia ao palco para receber os diplomas de mérito? Onde estavas quando soube que tinha entrado na minha primeira opção na faculdade? Pois….não estavas e nunca estiveste! Hoje estás…Hoje estás a “viver” a minha fase de finalistas, serás presença na minha pasta com as palavras que me irás escrever…mas fi-lo, acho eu, por ser moralmente correto e para não magoar mais a avó, porque ela sofreu! Ela chorou naquele dia, há 20 anos atrás…Estou a dar-te uma oportunidade, apesar de tudo, porque acredito que as pessoas possam mudar e têm o direito às “segundas oportunidades”…Não te perdoei ainda, espero um dia conseguir fazê-lo, não me forces e dá-me tempo…Acho que preciso e tenho o direito a ele. 

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